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Não há limites para os modismos corporativos

Caro leitor, esse artigo tem uma história toda própria. Eu observava pela janela de casa, ainda acordando, a manhã nublada que se anunciava pela janela, com uma imensa dúvida sobre o que escrever, e os dedos coçando para fazer esse texto, mas sem saber que caminho adotar.

Quem escreve é assim mesmo, se expressa pelo seu texto, mas não pode ser qualquer texto, qualquer coisa. Nada mais que caprichos, assumo, mas em seu benefício, tenha certeza.

E no meio dessa dúvida, fui salvo por uma notícia postada no Twitter. Li uma vez, depois outra sem acreditar no que estava ali afirmado. Exatamente assim: “Pessoas que gostam de rock resultam em melhores líderes, pois são mais antenadas, afirma especialista em recrutamento e seleção”.

O susto me acordou de vez, afastando a natural indisposição de uma noite de pouquíssimas horas de sono, para em seguida trazer o alívio: aqui está, pensei, é sobre isso que escreverei.

Me arrumei rapidamente, organizando na cabeça as ideias que estruturariam o texto (como essa historinha por exemplo). Em vinte minutos cheguei ao escritório, e agora estou aqui pensando na “ciência” que deve embasar essa afirmativa.

Fiquei imaginando não sem conter algumas risadas, no candidato a cargo executivo preocupado em ser aceito para a vaga, mas apreciador de música clássica, ou quem sabe de uma boa MPB, porém com o discurso pronto para convencer o entrevistador de sua familiaridade com a guitarra, ou da forma como se sente livre para inovar quando escuta alguns “hits” antológicos dos anos setenta.

Pensei também no entrevistador, que na verdade gosta de samba e não perde a oportunidade de comprar CD’s raros de bossa nova, com ar compenetrado e analítico, tomando nota para reportar aos superiores de que o líder que estavam procurando pode estar ali, bem na frente dele, afinal: “Ele gosta de rock, logo é mais antenado, logo tem mais capacidade de liderança”.

Depois da historinha e da cena cômica da entrevista, só me restam alguns questionamentos que divido com vocês: Onde vamos chegar com isso? É razoável que um processo de contratação seja ancorado em um bobajal dessa magnitude?

Evidentemente que não tenho nada contra o gênero musical “rock”, do qual confesso gostar bastante, mas pessoas “antenadas” são forjadas por curiosidade intelectual, por cultura geral, por conhecimento do processo histórico, com farta e diversificada leitura, por não alienação, por coragem em pensar por conta própria, pela fuga aos “lugares comuns”.

Contratar profissionais executivos é atividade séria, e de alto risco. Não pode estar sujeito a superficialidades, ou a modinhas de ocasião. Trata-se de um processo importantíssimo que não pode estar ancorado em preconceitos comportamentais desse tamanho.

Precisamos de empresas fortes, de verdade. Para isso, precisamos de especialistas e profissionais embasados e sólidos.

Precisamos com urgência fugir e renegar esse teatro sem sentido, que não atrai nem líderes, nem bons técnicos, e muito menos gente séria e comprometida.

Forma atores, isso sim, e bons roteiros teatrais.

Até o próximo.

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